sexta-feira, 7 de abril de 2017

ILUMINAR O AMOR com MARIA EMILIA BOTTINI

imagem net

ILUMINAR O AMOR
Maria Emília Bottini
 
Minha escrita de hoje é para pensarmos na vida. Muitos já passaram pela experiência de ter o corpo acometido por um câncer ou mesmo algum familiar. Essa doença, atualmente, afeta grande número da população e chega-se a pensar que não há interesse da ciência na erradicação dessa moléstia, pois a doença gera lucros, por veze maior que a saúde.

Com isso, quero dividir com vocês um pouco da história de uma pessoa incrível que luta pela vida. Tenho uma amiga que admiro profundamente, seu humor é sua marca, quando estou com ela o riso é fácil, mas as lágrimas também se fazem presentes. Ela tem câncer em seu corpo minúsculo e frágil, mas seu interior carrega um mulherão com forças avassaladoras que deixa muitos de nós recolhidos na insignificância.

Sua luta contra o câncer tem algum tempo, foram muitas quimioterapias, já passam de quarenta. Confesso que por vezes não sei de onde tem retirado forças. Ela mesma se questiona sobre isso. Afirmo a ela que é para além do corpo casando, ferido e maltratado pela doença, seus recursos brotam de seu interior, forjados ao longo do seu viver.

Estudei a temática da morte para entender a vida e pensei muito sobre emprestar-lhe alguns livros de Elizabeth Krübler-Ross, pioneira nos estudos de tanatologia. Além de pensar, separei três livros que me pareciam adequados que ela os conhecesse, deixei-os na estante para em um algum momento falar-lhe deles.

Não demorou e recebi sua visita em minha casa. Nessa ocasião achei oportuno falar-lhe sobre esta grande autora e seus escritos. Minha amiga só me olhava e dizia “Eu não acredito, não acredito”. Alguém de sua relação lhe havia sugerido a leitura Krübler-Ross naquele dia. Sincronicidade? Acaso? Coincidência? Não sei. O fato é que assim aconteceu e os livros partiram com ela naquela noite.

O tempo passou e em fevereiro entregou-me quinze páginas escritas frente e verso. Ao chegar em casa me envolvi com algumas atividades, mas não poderia dormir naquela noite sem ler o que havia nos manuscritos. Havia observações, desenhos, dúvidas, perguntas, reflexões e conversas com a autora de “Os segredos da vida”, que trata das lições que devemos aprender antes de morrer, sensivelmente regado a exemplos ricos em sabedoria e delicadeza.

Ao finalizar a leitura entendi que este livro havia penetrado o seu DNA, entranhado sua alma, então minhas lágrimas floresceram.  Não me contive e gravei-lhe um áudio no calor das minhas emoções de receber esse presente-vivo. Emprestei-lhe livros e ela me devolveu vida, sua vida, sua trajetória, sua música, seus alunos, sua história bonita e sofrida. No áudio a questiono sobre qual seria a lição que precisava aprender antes de partir.

Minha amiga não me retornava, fiquei um tanto preocupada, queria um retorno imediato, por vezes é preciso esperar o tempo, visto sua saúde ser frágil.

Também gravou um áudio em que agradecia a experiência e a oportunidade de ter conhecido Elizabeth, agora já eram íntimas e que a lição que mais precisava aprender era a do amor. Ouvi o áudio e passei a mão em um bebezinho que me acompanha em muitas atividades. Nos encontramos no grupo de yoga que fazemos nas terças e quintas. Grupo que tem uma instrutora cuidadora de nossos corpos, mas também de nossas almas.

Nesse dia a lição do amor foi aprendida com mais propriedade, com o bebezinho em seu colo nos contou de sua menina, de suas marcas na adolescência, da anemia plástica aos quinze anos, do transplante de medula, das manchas que o corpo recebeu para todo o sempre, da autoestima abalada, da faculdade no Rio de Janeiro, das aulas de biologia, da professora que se aposentou antes do tempo pelo câncer, da música que invadiu sua alma com a flauta... Contou-nos do sentir falta de amor algumas vezes, das diferenças, das dores que o câncer lhe trouxe, da dificuldade de entender alguns cuidados...

Enfim, dividiu conosco a dor e o prazer de ser quem é.

Minha amiga falou, falou, falou... Nós que participamos desse momento fomos escuta(dores) da mulher guerreira, batalhadora e de uma intensa luta pela vida que se abriga em seu corpo marcado pelo câncer, características que desconheço em muitos corpos saudáveis que cruzam meu caminho.

Ao final desse momento de yoga-terapia enchemos balões coloridos com o amor.

Optamos por não estourar os balões, mas sim carregá-los conosco e espalhá-los por onde estivéssemos.

Os balões foram iluminados o que trouxe luz ao amor. Talvez tudo o que precisamos fazer em uma vida finita seja iluminar o amor para que ele siga para além de nós mesmos quando aqui não estivermos mais.
 
[1]Psicóloga da Clínica Ser
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF)
Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB)
Autora do livro No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer
 


 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A LENDA DOS MIL TSURUS POR MARIA EMÍLIA BOTTINI


imagem net
 
A LENDA DOS MIL TSURUS
Maria Emília Bottini[i]

Ninguém sabe desde quando existe a lenda dos mil Tsurus (ave da espécie da família dos grous - cegonhas, nativa do Japão), refere que aquele que fizesse mil tsurus de origami teria um pedido atendido pelos deuses. A lenda ficou mundialmente conhecida com uma garotinha chamada Sadako Sasaki.
Sadako nasceu em Hiroshima e tinha dois anos quando os americanos lançaram a bomba atômica. Ela vivia distante do epicentro da bomba e juntamente com a mãe e o irmão, saiu ilesa do ataque, porém durante a fuga, foram atingidos pela chuva negra radioativa que caiu sobre a cidade ao longo daquele dia.
Após o término da guerra, Sadako e sua família viviam normalmente. Ela era uma garota aparentemente saudável até completar doze anos. Em janeiro de 1955, durante uma aula de educação física, ela adorava corridas, sentiu-se mal e teve tonturas. Dias depois sentiu-se mal novamente e caiu no chão, sem sentido. Foi levada ao hospital, depois de alguns dias surgiram marcas escuras em seu corpo e foi diagnóstica com leucemia. Ela foi internada em fevereiro de 1955 com um prognóstico de um ano.
Em agosto, sua melhor amiga, Chizuko Hamamoto foi visitá-la e a presenteou com uma dobradura de tsuru e contou-lhe sobre a lenda dos mil tsurus de origami. Sadako decidiu fazer os mil tsurus, desejando a sua recuperação. A doença avançava rapidamente e sentia-se cada vez mais debilitada, mas prosseguia dobrando lentamente os pássaros, sem mostrar-se zangada, mas sim resignada.
Em dado momento a menina compreende que sua doença era fruto da guerra e mais do que desejar apenas a própria cura e a paz para a humanidade e também para que nenhuma criança mais sofresse pelas guerras. Ela disse aos tsurus: “Eu escreverei paz em suas asas e você voará o mundo inteiro”. Na manhã do dia 25 de outubro de 1955, Sadako montou seu último tsuru e faleceu, amparada por sua família. Ela não conseguiu completar os mil origamis, fizera 644. Mas seu exemplo tocou profundamente seus colegas de classe e estes dobraram os tsurus que faltavam para que fossem enterrados com ela.
Os colegas formaram uma associação e iniciaram uma campanha para construir um monumento em memória à Sadako e à todas as crianças mortas e feridas pela guerra. Em 1958 com doações de cerca de 3100 escolas japonesas e mais nove países, foi erguido o Monumento das Crianças à Paz, conhecido também como Torre dos Tsurus, no Parque da Paz em Hiroshima.
O monumento de granito simboliza o Monte Horai, local mitológico onde os orientais acreditam que vivem os Espíritos. No topo do monte está a jovem Sadako segurando um tsuru em seus braços estendidos. Na base do monumento estão gravadas as seguintes palavras: “Este é nosso grito. Esta é nossa oração: paz no mundo”.
Essa lenda me tocou profundamente, porque a Paz é ainda um desejo, um devaneio, uma utopia no horizonte do mundo moderno. Mal termina uma guerra outra já está a caminho ou mesmo ocorrem concomitantes, tornando-nos uma humanidade sempre em guerra. Guerras são justificadas e foram aprendidas e quiçá possam ser desaprendidas.
É preciso acreditar no desejo das crianças e construir a paz no mundo a partir de atitudes e não de falatório. Se bem me lembro não foram as crianças que soltaram as bombas atômicas no Japão em 1945. Crianças refletem o que vivem.
Quantos tsurus deveríamos fazer no mundo moderno para nos dar conta de que a guerra só produz cemitérios, órfãos e sofrimentos? Talvez apenas um tsuru, seja o suficiente, parece que nossos braços não conseguem substituir os de Sadako e suportar tal peso e poder em nossas mãos, é responsabilidade demais para os humanos, deixemos para as lendas.




[i] Psicóloga clínica, Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF), Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB). Autora do livro: No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer. Acesse a página do livro: https://www.facebook.com/No-cinema-e-na-vida-a-dif%C3%ADcil-arte-de-aprender-a-morrer-896048947117180/?ref=bookmarks. E-mail: emilia.bottini@gmail.com.
.